É do Brasil: cientistas na lista da 'Time' dizem que pesquisa nacional pode salvar e transformar vidas
16/04/2026
(Foto: Reprodução) É do Brasil! Cientistas brasileiros na ‘Time’ dizem que pesquisa pode salvar vidas
Uma bactéria que impede o vírus da dengue de se multiplicar dentro do mosquito. Microrganismos do solo que substituem fertilizantes químicos e aumentam a produtividade agrícola. Essas duas linhas de pesquisa, desenvolvidas no Brasil, colocaram os cientistas Luciano Moreira e Mariangela Hungria na lista das 100 pessoas mais influentes do mundo da "Time" em 2026.
Para os dois pesquisadores, o reconhecimento internacional vai além de uma conquista individual. É um indicativo do potencial da ciência brasileira de gerar impacto direto na vida das pessoas — seja na saúde pública, seja na produção de alimentos.
Luciano Moreira, pesquisador selecionado na lista dos 10 mais influentes na pesquisa no mundo em 2025 pela revista Nature
Divulgação
“É um grande privilégio, mas o que mais importa é mostrar que a ciência é o caminho para trazer proteção à população. A pesquisa brasileira pode salvar milhares de pessoas.
Mariangela Hungria engenheira agrônoma pela USP.
Arquivo Pessoal/Mariangela Hungria
Não tenho palavras para expressar a alegria de ter um reconhecimento desse, mas é um reconhecimento que não é só meu, é da pesquisa brasileira, é da ciência brasileira, é de instituições públicas que sempre investiram e acreditaram.
Da pesquisa ao impacto real
As trajetórias dos dois cientistas têm em comum uma longa trajetória de dedicação a descobertas que vêm mudando realidades.
Moreira, incluído na categoria “Inovadores”, trabalha há 17 anos no desenvolvimento do método Wolbachia. A técnica consiste em introduzir uma bactéria no mosquito Aedes aegypti, impedindo a transmissão de doenças como dengue, zika e chikungunya.
Ele se dedicou por anos a um tema que é considerado negligenciado. Como essas doenças afetam países tropicais e em desenvolvimento, durante décadas houve pouca pesquisa para freá-las.
E isso foi se tornando um problema cada vez maior: desde os anos 2000, mais de 18 mil pessoas morreram por dengue no Brasil e outras 25 milhões já tiveram a doença – o que pressiona o sistema de saúde.
Hoje, os mosquitos "turbinados" são parte da política pública brasileira de combate à dengue. O país tem a maior fábrica desses insetos do mundo.
“O método saiu do campo científico e agora é uma forma de controle, listada como uma política pública pelo Ministério da Saúde”, explicou.
Já Hungria, reconhecida como “Pioneira”, desenvolve pesquisas voltadas ao uso de microrganismos do solo para substituir fertilizantes químicos. A agricultura, um pilar fundamental da economia brasileira, depende desse tipo de substância, que afeta o meio ambiente.
A meta de vida da pesquisadora era criar uma solução que pudesse afetar menos o meio ambiente, seguindo para um "agro mais sustentável" e barato para a economia nacional. Após 34 anos de dedicação, ela conseguiu.
A pesquisadora identificou e selecionou bactérias que facilitam a fixação do nitrogênio nas lavouras de soja. Este nutriente é indispensável para que as plantas cresçam e se desenvolvam. A pesquisa, feita na Embrapa Soja, em Londrina, no Paraná, deu origem a um produto chamado inoculante, que é misturado à semente na hora do plantio. Ele diminui o impacto ambiental e é mais barato.
O resultado? Hoje, 85% das áreas com cultivo de soja no país adotam o produto desenvolvido por ela. Isso resulta em uma economia de cerca de R$ 140 bilhões. Além de reduzir o impacto da produção dessa commodity tão importante para o país no meio ambiente.
"Hoje, o agricultor economiza, já que os biológicos são muito mais baratos do que os químicos. E faz tudo isso de uma forma mais respeitosa com a natureza... melhorando a saúde do solo, deixando menos resíduos dos alimentos", explica.
Os dois cientistas reforçam que o reconhecimento da revista "Time" mostra o quão importante e relevante é a ciência nacional.
"É preciso agradecer à ciência, à pesquisa brasileira e a todos aqueles que nos ajudam a conduzir [o processo] de modo resiliente", pontua Mariangela.